1° Domingo na Quaresma
Textos: Marcos 1.9-15; Salmo 25.1-10; Gênesis 22.1-18; Tiago 1.1;

O mês de março está chegando, e por isto este gosto amargo, esta cara azeda da maioria. É o retorno à rotina do trabalho, das aulas e de uma agenda lotada. Além disto, o início de 2024 começou complicado: A epidemia da dengue.
Enfim, é a dura realidade num mundo onde até um pequeno inseto pode complicar toda a nossa vida. Ou seja, vivemos num mundo instável, cheio de perigoso, completamente imprevisível.
Enquanto isso, este momento não deixa de ser também um período pesado na vida da igreja, porque junto com o reinício dos trabalhos normais das congregações, é Quaresma – tempo de refletir sobre uma sexta-feira amarga na vida de Jesus.
Quaresma sempre começa com a história da tentação de Jesus no deserto, isto para enfatizar que não existe atalho para ir adiante. Ou seja, é preciso passar por esse lugar desabitado, desprovido, triste. É preciso encarar as dificuldades, o sofrimento, a solidão, a cruz.
Não podemos esquecer que só existe verão, férias, praia, viagens, diversão, descanso, porque existe trabalho, estresse, preocupação, cansaço.
Muitas vezes queremos férias sem trabalho, final de semana sem segunda-feira, início de ano sem março, Domingo de Páscoa sem Sexta-feira Santa. Muitas vezes queremos bênçãos sem a cruz.
“Quem quiser me seguir, tome a sua cruz, esteja pronto para morrer como eu vou morrer, e só depois venha comigo”, lembrou Jesus aos seus discípulos que esperavam uma vida mansa e tranquila ao lado do Mestre.
Mesmo quando não caímos na conversa da teologia da prosperidade que promete mundos e fundos, somos tentados pelo Diabo em transformar pedras em pães sem pegar na massa…Todo o cuidado é pouco nesta terra onde Satanás tem poder para nos conduzir por caminhos sem a cruz.
Neste primeiro culto de Quaresma, o Evangelho nos indica o JEITO para ENCARAR o mês de março, ou seja, as dificuldades, com força, ânimo e coragem. O caminho, além de ser o próprio Jesus, é também a tática que o Salvador usou na guerra espiritual contra Satanás.
Mas, o que está em jogo nesta batalha entre Jesus e Satanás? O que está em jogo é a nossa alma, nossa vida eterna, nossa salvação.
Para nos derrotar, Satanás usa uma tática muito parecida com o que acontece hoje, por exemplo, na guerra terrena da internet. E que agora fica ainda mais complicado com a inteligência artificial. Os golpistas que usam as ferramentas da internet agem de maneira que ninguém os possa perceber. Se infiltram, se disfarçam, se escondem. Se transformam, inclusive, em alguém que conhecemos, nosso amigo, parente. Satanás segue esta tática. Ele trabalha escondido. Jesus mesmo disse, certa vez, que o Diabo se veste como um anjo da luz. E assim, sem as pessoas perceberem, ele engana, e pior, tira a vida eterna das pessoas.
As leituras bíblicas deste culto têm o intuito de nos preparar contra as ciladas do pai da mentira. Por exemplo, a história de Abraão. É muito difícil entender como Deus pode fazer isto com Abraão, de colocá-lo numa prova tão horrível: pedir para ele sacrificar o seu filho Isaque. Nós conhecemos o final da história, mas, será que não tinha outro jeito para provar a fé de Abraão?
É complicado entender o jeito de Deus agir. Por que ele permite que o Diabo tenha poder neste mundo? Por que Deus não acaba de vez com ele?
Nós também já sabemos o final desta história, um dia Satanás será completamente derrotado. Mas, enquanto “estamos levando Isaque para ser sacrificado”, enquanto estamos sofrendo derrotas nas inúmeras batalhas contra este anjo do mal, somos tentados a acreditar nos poderes que Satanás não tem, e deixar de acreditar nos poderes que Deus tem.
Por isto as palavras de Tiago: “Feliz é aquele que nas aflições continua fiel! Porque, depois de sair aprovado dessas aflições, receberá como prêmio a vida que Deus promete aos que o amam. Quando alguém for tentado, não diga: “Esta tentação vem de Deus.” Pois Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo não tenta ninguém. Mas as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos.” (Tiago 1.12-14)
“As pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos”
É aqui que Satanás tem o seu poder, de nos atrair e nos enganar como os nossos próprios desejos.
O relato da tentação de Jesus nos ajuda a entender a maneira como Satanás usa este inimigo que está dentro de cada um de nós, e que, na verdade, somos nós mesmos.
O evangelho de Marcos não narra os fatos da tentação de Jesus pelo Diabo, mas Mateus e Lucas narram. E assim, conhecemos a tática de Satanás nas suas investidas também contra nós, filhos e filhas de Deus.
Nós podemos observar que nas duas primeiras tentações existe uma conexão pelo contraste, uma ligação pela diferença.
Na primeira tentação Satanás mandou Jesus transformar pedras em pão. Fazia 40 dias que Jesus não comia. Aqui o Diabo tentou Jesus para uma falta de confiança em Deus. Era como se o Diabo estivesse dizendo:
– Veja, Deus te esqueceu, te deixou sozinho aqui neste deserto. É melhor tomar as rédeas, é melhor seguir o teu próprio caminho. Deixa o teu Pai de lado e segue o teu rumo…
Na segunda tentação, a tática do Diabo é pelo caminho inverso, isto é, no abuso, no excesso de confiança em Deus.
Satanás levou Jesus para o lugar mais alto, e disse: jogue-se para baixo, pois a Bíblia diz que os anjos cuidarão de ti. (Satanás usou aqui, inclusive, a Bíblia o Salmo 91). Vale aqui observar este detalhe. Os seguidores do Diabo usam a Bíblia. Por isto, quando hoje navegamos pela internet, e quando em cada esquina tem uma igreja, todo o cuidado é pouco com aquele pastor que fala em nome de Deus. Pode ser o Diabo.
Em todo o caso, é desta forma que o Diabo tenta os filhos de Deus. Ou pela falta de confiança, ou pelo excesso de confiança. E os elementos são os mesmos. No caso do “pão” – é o elemento material, físico, as coisas terrenas. Por isto aquela advertência de Jesus, de que as riquezas deste mundo são um grande obstáculo para o céu.
A resposta de Jesus a Satanás deve ser a nossa resposta hoje, quando somos tentados a desconfiar de Deus. Jesus disse a Satanás: “O ser humano não vive só de pão, mas vive de tudo o que Deus diz” – vive da Palavra de Deus.
Vejam, Jesus não diz aqui que o pão é desnecessário. O que ele diz é que o pão não é suficiente. O pão não basta, ele não supre tudo, ele não salva. É necessário também o Pão da Vida.
Nós temos um corpo e temos uma alma. Os dois são importantes, tanto que, na ressurreição, haverá novamente corpo e alma.
Portanto, se neste caso, transformar pedra em pão é a falta de confiança no amor e na providência de Deus, atirar-se para baixo na confiança de que Deus vai amparar é usar a fé de uma maneira equivocada. Por isto as palavras de Jesus ao Diabo: não ponha à prova o Senhor, seu Deus.
– Como fazemos isto hoje?
Fazemos isto quando usamos a Palavra de Deus, a igreja, as coisas de Deus, para algum propósito egoísta, mal-intencionado, com o objetivo de exaltar-se a si mesmo.
Esta enganação de Satanás também pode acontecer em nome da fé cristã. Cristãos, pastores, líderes de igreja, já caíram na armadilha “de que Deus está do seu lado e nada poderá os derrubar”. Tempos atrás um homem entrou na jaula de um leão dizendo que se Daniel entrou na cova dos leões, conforme está na Bíblia, ele também podia entrar. Este homem foi devorado pelos leões.
Nós temos que tomar todo o cuidado com esta tática de Satanás.
O que está por trás de nossa confiança?
O que nos motiva, o que nos impulsiona?
Onde está alicerçada a nossa confiança? Nas promessas de Deus ou na nossa vontade (que pode ser a vontade do Diabo)?
Na terceira tentação, a gente fica com a impressão de que Satanás fica desesperado. O que se percebe MESMO é que Satanás MOSTROU bem as suas garras, os seus dentes, mostrou o que ele realmente queria alcançar em todas as tentações.
Apontando para todos os reinados do mundo e suas riquezas, o Diabo fez um convite a Jesus:
– Eu lhe darei tudo isso se você se ajoelhar e me adorar.
“Eu lhe darei tudo isso”? Mas, de quem é “tudo isto”? Como é que o Diabo vai dar para Jesus algo que não é dele, aquilo que é do próprio Jesus?
O Diabo é o pai da mentira, é ladrão, é o chefe de todos os que fazem falcatruas.
Como aconteceu nas duas tentações anteriores, Jesus também venceu esta terceira. Venceu porque conforme a profecia, ele tinha sido escolhido para esmagar a cabeça da serpente.
Por isto, Jesus não podia apenas multiplicar os pães, encher a barriga das pessoas, curar as suas doenças, ressuscitar os mortos.
Ele precisava carregar a cruz e morrer nela.
Em Apocalipse lemos “que o Diabo desceu até vocês e ele está muito furioso porque sabe que tem somente um pouco mais de tempo para agir” (Apocalipse 12.12).
A gente sabe muito bem o que faz uma pessoa quando está terrivelmente cheia de ódio. É o que Satanás sente, e por isto ele não respeita ninguém. Se não respeitou nem o Filho de Deus, então o que dirá de nós?
Da mesma forma, o Diabo não respeita nem lugar nem tempo: invade nosso lar semeando o joio da desunião. Invade a própria igreja, tirando as pessoas da comunhão.
“As Escrituras Sagradas afirmam”. Foi isto que Jesus disse para Satanás. É isto que podemos dizer ainda hoje quando somos tentados.
Estimados irmãos, Jesus venceu Satanás no deserto e na cruz. E assim cumpriu a profecia ao “esmagar a cabeça da serpente” (Gênesis 3.15). Mas, a enorme capacidade do anjo maligno está descrita na parábola do Semeador: “O Diabo chega e tira a mensagem do coração delas para que não creiam e não sejam salvas” (Lucas 8.12). Qual a mensagem que o Diabo tira? É aquela que Jesus mesmo anunciou: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Por isto o nome “diabo”, acusador, pois ele tenta tirar o que nos pertence, o perdão. “Se alguém pecar”, diz a Bíblia, “temos Jesus Cristo, que faz o que é correto. Ele nos defende diante do Pai” (1 João 2.1).
Pois neste mundo onde somos roubados de tantas coisas, o maior prejuízo é perder aquilo nos foi dado de presente através da vida, morte e ressurreição de Jesus. Amém.









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