Pastor Marcos Schmidt
19º Domingo após Pentecostes – 2023
Textos: Salmo 80.7-19; Isaías 5.1-7; Filipenses 3.4b-14; Mateus 21.33-46
Tempos atrás um casal na cidade de Passo Fundo fez uma mudança e colocou no lixo muita coisa que não tinha mais utilidade. Foram várias caixas com coisas que não estavam mais sendo utilizadas. Mas, sem perceber, colocou junto no lixo um dinheiro que estava guardando, 20 mil reais. O casal ficou três dias procurando o valor nos depósitos de lixo, sem nenhum sucesso.
Tem muita coisa em nossa vida que precisa ser jogada fora, é lixo. Mas, é preciso tomar todo o cuidado para não descartar aquilo que é valioso. Podemos nunca mais ter de volta aquilo que jogamos no lixo, mas que tinha um imenso valor.
Foi o que fizeram as pessoas do povo de Israel. Quem fala deste absurdo é próprio Senhor Jesus, ao dizer: “A pedra que os construtores rejeitaram (isto é – jogaram no lixo) veio a ser a mais importante de todas” (Mateus 21.42).
Esta atitude descabida foi praticada pelos construtores da Igreja do Antigo Testamento. Eles pegaram as pedras ruins, sem consistência, para construir a base de sua religião, e jogaram fora a pedra boa e consistente, a pedra fundamental. Ou seja, eles refugaram Jesus.
Este foi o propósito da parábola dos lavradores maus, tentar abrir os olhos deste erro grotesco que eles estavam cometendo. Jesus foi direto: – vocês, líderes da igreja, jogaram fora o principal, o tesouro, que é a salvação de vocês.
Este fato narrado pelo evangelista aconteceu poucas horas antes de Jesus ser preso e morto na cruz. Depois de Jesus contar esta parábola, olhando direto nos olhos dos seus ouvintes, diz o evangelista Mateus que os chefes dos sacerdotes e os fariseus, que ouviram as parábolas de Jesus, sabiam que ele estava falando deles. Por isto queriam prendê-lo…
E como sabemos o final da história, eles conseguiram isto (claro, porque Deus permitiu). Eles prenderam e mataram Jesus, confirmando o que o próprio Salvador disse na parábola: “Quando os lavradores viram o filho do dono, disseram uns aos outros: este é o filho do dono, ele vai herdar a plantação. Vamos matá-lo, e a plantação será nossa”.
Percebemos aqui uma coisa terrível. A rejeição do amor de Deus tem um resultado que é uma característica neste mundo que joga no lixo o tesouro da salvação eterna: o ódio.
E tem mais: assim como Jesus foi odiado por aqueles que o rejeitaram, existe uma realidade que todos nós, cristãos verdadeiros, também experimentamos: nós também somos odiados pelo mundo.
Mas, é preciso aqui ressaltar um detalhe: o cristão é odiado pelo mundo por causa do amor que ele pratica, e não por causa do ódio, que ele também pratica – devido ao pecado que ainda age no coração do cristão.
Se o cristão paga o mal com o bem, perdoa, enfim, se ele segue os passos de Jesus pelo caminho do amor, então, de alguma forma, ele vai ser odiado. Porque o amor provoca rejeição.
Agora, claro, pagar o mal com o mal, isto não é cristão, Isto é seguir o mesmo caminho do mundo. Então, é o ódio contra o ódio.
Outro detalhe, um cristão também pode viver escondido, sem dar o seu testemunho, sem a prática do amor, sem seguir pelo caminho de Jesus, sem carregar a sua cruz. E desta forma, vive uma vida igual às pessoas do mundo, e, consequentemente, ele não terá nenhum tipo de perseguição.
Em todo o caso, fica a pergunta:
Por que a própria igreja perseguir Jesus? Afinal, foram os líderes religiosos do povo de Israel, o povo de Deus, que perseguiram e mataram Jesus. Foram aqueles que receberam a promessa no Antigo Testamento, da vinda do Messias.
Por que estas pessoas tanto odiavam Jesus?
Aliás, este foi o grande desgosto de Deus, conforme a parábola em Isaías – a leitura do Antigo Testamento, Isaías 5.1-7. A parreira de uvas é o povo de Israel, que Deus plantou numa terra boa, fez cercas, muros, e uma torre de vigia para oferecer proteção, enfim, tudo foi feito para colher uvas boas.
Só que no versículo 4 neste capítulo 5 de Isaías, lemos palavras que mostram a grande decepção de Deus, o dono da plantação de uvas: Fiz por ela tudo o que podia, então, por que produziu uvas azedas em vez de uvas doces que esperava?
Em outras palavras, as pessoas que Deus escolheu para produzirem boas obras e serem um testemunho vivo do amor de Deus para o mundo inteiro, estas pessoas fizeram exatamente o contrário. Diz o texto: “Deus esperava que eles obedecessem a sua lei, mas ele os viu cometendo crimes de morte”.
Todo o livro de Isaías, e outros livros dos profetas no Antigo Testamento, são uma prova consistente deste povo cheio de privilégios, que em diversas situações e épocas, trouxe desgosto no coração de Deus.
Por isto, então, as palavras duras de Jesus depois de contar uma parábola parecida: Eu afirmo a vocês que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado para as pessoas que produzem os frutos do Reino.
Estimados irmãos e irmãs, não há dúvida de que estas palavras duras de Jesus são um alerta para nós, hoje. Afinal, nós somos a atual plantação de uvas do Reino de Deus.
Somos a igreja do Novo Testamento, escolhidos por Deus no dia quando fomos batizados, ou no dia quando o Espírito Santo nos enxertou na Videira, que é Jesus.
E nós sabemos o quanto Deus nos ama e faz de tudo para nos manter firmes na Videira Verdadeira. Deus fez uma cerca ao nosso redor, e uma torre de vigia – através de sua Palavra, da igreja – para nos manter firmes na fé e cheios de frutos do amor.
Mas, daí vem o recado das leituras deste culto, é preciso tomar todo o cuidado para não jogar no lixo aquilo que mais importa em nossa vida. E se existe um exemplo que podemos seguir, então é a atitude corajosa de Paulo, conforme ele mesmo lembra na carta aos Filipenses: “eu joguei tudo fora como se fosse lixo, a fim de ganhar a Cristo” (Fp 3.8)
Nós conhecemos a história deste homem determinado. Antes de ser o apóstolo Paulo, ele foi o fariseu Saulo, um religioso cheio de ódio contra o filho do dono da plantação. Ele mesmo confessa que perseguiu os cristãos, e fez isto convencido que estava no caminho certo – mas era o caminho do ódio.
Ele mesmo diz que era um fanático. Mas, depois de jogar o lixo no lixo, Paulo confessou: “Considero tudo como uma completa perda, comparado com aquilo que tem muito mais valor, isto é, conhecer completamente Cristo Jesus, o meu Senhor. Eu joguei tudo fora como se fosse lixo, a fim de poder ganhar a Cristo…”.
O termo fanático, do latim fanaticus – o que pertence a um templo (fanum), surgiu no século 18 para caracterizar pessoas extremistas. Profano vem de pro fanum – fora do templo ou aquele que não entra no templo.
O apóstolo Paulo confessa que na época quando era fariseu, o seu fanatismo o levou a perseguir a igreja (Filipenses 3.6). A palavra que ele usa no grego é zelo para fanatismo (a mesma no português), e que significa dedicação. Qualidade boa, assim como pertencer a um templo. Mas, quando o zelo se transforma nisto que Paulo descreve, então qualquer coisa boa vira aquilo que hoje tanto perturba os nossos relacionamentos.
Cristianismo e fanatismo não se combinam. Paulo escreve na carta aos Gálatas que “o Espírito de Deus produz o amor, a alegria, a paz, a paciência, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o domínio próprio”. Em outra carta, o apóstolo recomenda: “O servo do Senhor não deve andar brigando, mas deve tratar todos com educação” (2 Timóteo 2.25). No Sermão do Monte, o Salvador recomendou: “Amem os seus inimigos e façam o bem para eles (…) Tenham misericórdia dos outros, assim como o Pai de vocês tem misericórdia de vocês”.
É isto que Jesus espera de nós, seus seguidores, que as uvas que produzimos sejam uvas doces, e não azedas. Vivemos num mundo azedo, sem amor. Porque jogou fora, no lixo, o Deus Criador e Salvador, e guardou para si seu egoísmo, ódio, violência, ganância, e todos os tipos de pecado.
Por isto, nossa oração hora é a mesma do salmista:
“Volta para nós, ó Deus Todo-Poderoso! Lá do céu olha para nós; vem e salva a tua parreira. Vem e salva essa parreira que tu plantaste, esse ramo novo que fizeste crescer tão forte” (Salmo 80.14,15). Amém.
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